sábado, 11 de fevereiro de 2012

De irmão ...



De irmão para irmão

Irmão te gosto de montão.
Não importa a vida não.
Iremos nos encontrar
em algum outro lugar.
Onde Deus, eu sei que estará.

Outros amigos iremos ver por lá.
Creio que sabias de tudo isso
memo sem nunca lhe falar.
Vá com Deus meu irmão.















O riso do cavalo
Por Luci Ane G. Melo (relato de meu irmão) Antonio Carlos G. Mello (in memória)

Escola bairro Antonina, São Gonçalo, RJ. Ano de 1956.
A escola ficava em um casarão, em formato de “L”, de uma antiga fazenda , telhado colonial, piso de tábua corrida, foro branco antigo e apodrecido, porão misterioso.
A diretora, Dona Elza, pelo tempo, que Deus a tenha.
O pátio de areia e pó de pedra. Recreio com muito “atirei o pau no gato” e “ O cravo brigou com a rosa” dos mais velhos sem a menor paciência com os roceirinhos de nariz escorrendo, que como eu, aos cinco anos de idade estava matriculado na 1ª série.
Pré-escola, jardim de infância, nada disso existia ; quem soubesse o alfabeto, contar até dez, fazer conta de somar e diminuir já estava culturalmente acima de muita gente boa que já ganhava salário mínimo.
Na sala de aula o cheiro de manteiga ou banana cozida não podia tirar a atenção, senão, aquela fada cheirosa, vestida como uma flor, transformava-se numa bruxa oportunista e com uma régua trazia o incauto ao dever. O açoite doía menos que o estrondo da gargalhada geral, principalmente se dela também participava a dona do “cabelinho com laço de fita” , de quem sempre se esperou um sorriso ou a simples pronuncia de nosso nome, mesmo que fosse para lamber o chão.
Aí estudava eu e meu irmão mais velho. Morávamos a três ou quatro quilômetros , por que não dizer, mato adentro. Eramos os capiais da turma, errados sempre, mesmo quando acertávamos. Afinal nunca poderiam conceber sermos iguais aos que tinham como vizinhos a parada do trem e até o “Ponto Cem Reis” do bonde.
A professora era sempre esperada e recebida por um séquito de garotinhas perfumadas que nunca tinham perebas, trocavam beijinhos. Alguns levavam presentes como maça, frutas dos seus quintais ou ramo de flores:
- Mamãe que mandou pra senhora.
_ Diga a Dona Aurora que gostei muito!( respondia a professora).

A professora saudava alguns meninos:
- Como vai Flavinho?
_ Vou bem Fessôra. (respondia o menino)

_ E você Ricardo?
_ Também vou bem Fessôra.

Para mim, para o mano e alguns outros, ela tinha apenas suspiros de resignação. Os tempos eram antigos, mas já não era permitido às professoras esganar alunos maltrapilhos, filhos de não sei quem e certamente não daria em nada na vida.
Mas voltemos ao assunto principal:
A linha do trem passava a uns cem metros, era hora de recreio, devia ser três horas da tarde( 15 horas) , pois a aula começava ao meio dia. O trem vinha apitando insistentemente eram apitos dramáticos. A passagem majestosa da “ Maria fumaça” com toda sua composição era para nós, “os não completamente civilizados”, um momento quase hipnótico, mas naquele dia, chamava a atenção de todos.
A composição continuou a aproximação cada vez mais lenta, o sibilar dos freios era abafado pelo apito incessante, e quando chegou em frente ouviu-se uma barulheira infernal, indescritível, de ferro contra algo abafado e tinha-se a ilusão de que um saco marrom era sacudido sob as rodas da locomotiva e de cada vagão que passava...
_ “O trem pegou um cavalo” – Alguém gritou.

A criançada no pátio, qual formigueiro pisado, começou a correr e a falar todos ao mesmo tempo. Professoras apareceram tentando conte-los, inutilmente, pois os meninos principalmente, em fração de segundo já estavam no local do acidente. Não fui lá, não acredito que tenha sido por bom senso, talvez alguém tenha me barrado a passagem.
Aos poucos, instalados pelas professoras, voltavam em procissões.
Era visível a insatisfação dos educadores com a súbita explosão de suas turmas.
Carlos meu mano e os outros, excitadíssimos, esforçavam-se em descrever o que perdi, mostrando em seus próprios corpos: “ Cortou a barriga aqui!” ... Outro dizia: “ A mão de trás esmigalhou assim!”
Foi longa a macabra descrição, por fim mostrei também interesse perguntado como estava a cara dele. O meu irmão respondeu:
- “O olho estava aberto e os dentes assim...” E mostrou-me os próprios dentes arregaçando os lábios num sorriso mais sem graça que já vi.
Texto escrito em janeiro de 1993 por Antonio Carlos G. Melo, que na época já era Dentista aposentado , relembrando sua vida escolar e de seu irmão mais velho.
O fato prova que a pobreza não é sinônimo de ignorância e nem de predestinação de um futuro fracassado.




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domingo, 5 de fevereiro de 2012